quarta-feira, 13 de abril de 2011

As guerras no Vietnã

É incrível o Vietnã! Na nossa programação, tínhamos deixado mais ou menos duas semanas para ele. É pouco! O país merece no mínimo três! E no fim, pra nós muita coisa ficou pra trás e o Vietnã faz parte da lista dos países para os quais eu quero muito voltar.

O Vietnã foi a primeira nação comunista onde estive. Curiosamente, participa do mercado mundial como qualquer outro país capitalista. Embora haja apenas um partido político – o Partido Comunista, claro – há eleições para que o povo escolha entre certos membros do partido aquele por quem querem ser governados. Contudo, a pessoa mais importante do governo é o presidente do próprio partido, e este não é o povo que escolhe.

Tirando isso e o fato de que o Facebook é bloqueado no Vietnã, em princípio o povo não me pareceu tão podado nas suas liberdades; em princípio. Liberdade de consumo, por exemplo, eles têm. Irônico?

Ho Chi Minh – ou “Uncle Ho” –, o grande responsável pela instauração do comunismo no país, tinha grandes qualidades. E uma das coisas interessantes que ele promoveu foi a reforma agrária. Depois de ter desapropriado as terras, ele as redistribuiu de forma justa. Cada família recebeu seus campos de arroz igualitariamente: um de boa qualidade, um nem tanto, um de pior qualidade, sem importar que não estejam lado a lado os pedaços de terra que pertençam a uma mesma família. A prioridade era a distribuição justa.

Não há como negar que os Vietnamitas são um povo lutador – e vencedor! Mal tinham vencido a guerra pela independência contra a França em 1954, um ano depois os EUA já estavam no país. Tendo perdido já três batalhas contra o comunismo (a invasão da Baía dos Porcos, no sul de Cuba; a construção do muro de Berlim; o estabelecimento de acordos entre o governo Pró-Ocidente do Laos e seu movimento comunista, contra a vontade americana), no começo dos anos 60 os States decidiram colocar tudo na guerra contra o Vietnã (principalmente o sul – o país estava dividido em dois e no norte Ho Chi Minh já tinha estabelecido a nação comunista), pois mais uma batalha na sua política do “containment” (conter o comunismo no mundo) eles não iriam perder. Nas palavras de Kennedy, “agora nós temos um problema pra fazer com que acreditem no nosso poder novamente, e o Vietnã parece ser o país para tal” (tradução livre).

Essa guerra foi cruel... O War Remants Museum, na Ho Chi Minh City (antiga Saigon), explica e mostra tudo muito bem. Meus olhos se encheram de lágrimas várias vezes e a tristeza estava estampada na cara de cada um dos visitantes do museu. Chega a dar uma raiva generalizada dos americanos, e tu te perguntas como hoje o Vietnã consegue manter relações diplomáticas com os EUA (desde 1995). Mas aí há que se pensar nas palavras do próprio Ho Chi Minh: ele deixou claro aos vietnamitas que a guerra era obra do governo americano; que eles não perdessem o respeito pelo povo americano em geral.

A guerra chegou ao norte, pois era por lá que vinham os armamentos e mais pessoas para lutar ao lado dos Vietcongs. Nessa região ficamos uns dias numa fazenda e conhecemos a mãe da nossa anfitriã, que lutou na guerra, andou quilômetros carregando artilharia mais pesada que o seu próprio peso, e levou dois anos para percorrer duzentos e poucos quilômetros de volta pra casa. Vimos ainda crateras feitas pelas bombas, hoje usadas como “fish tanks”.

Entre agente laranja com consequências que se fazem sentir até os dias atuais, muita morte e destruição, a partir de 1973 os EUA começaram a se retirar do país, e em 1975 deu-se a unificação do Vietnã, vitória ainda celebrada!

Hoje a guerra do Vietnã é outra. Embora a indústria turística venha crescendo ano a ano e portanto o país esteja mais e mais preparado para o turismo (há que se dizer, contudo, que o foco primordial deles é o turismo local; pouca coisa em inglês, por exemplo), o trabalho informal ainda alcança a imensa maioria da população e é fácil encontrar crianças trabalhando nas ruas. Além dos seus desafios econômicos, falta ao povo do Vietnã liberdade de religião, de associação, de imprensa.

Chama a atenção um país em que 80% da população se diz budista ter bem menos templos em comparação a outros países de maioria budista, e o fato de que não se vê nenhum monge na rua. Teme-se que a religião “domine” mais que o comunismo, controle mais o povo, por isso a religião nunca foi muito estimulada pelo governo. Hoje a lei vietnamita exige que os grupos religiosos sejam registrados e que operem estritamente sob controle governamental. Quem faz parte de igrejas/templos não registrados é considerado subversivo e por isso preso. Até mesmo líderes de religiões registradas que propõem mais liberdade religiosa são perseguidos.

Liberdade de imprensa é outra coisa que não existe. O governo controla tudo, até as artes que podem ser expostas no Museu de Artes da capital, Hanoi. Está proibida a publicação e divulgação de conteúdo de crítica ao governo, tendo este prendido blogueiros e ativistas políticos que o fizeram na luta por direitos fundamentais. Eu já falei aqui que o Facebook é oficialmente bloqueado, embora se tenha que admitir que é muito fácil burlar isso. Até eu, que não sou TI, dava meu jeitinho. Oficialmente, internet cafés têm que obter identificação com foto dos usuários e ainda monitorar e armazenar informação sobre suas atividades online, mas é fato que nas áreas turísticas eles mudam o endereço do proxy (o De me ajudou nessa!) e consegue-se acessar os saites de mídia social sem problema.

De qualquer forma, a maioria desses dados eu fiquei sabendo ao ler relatórios de direitos humanos sobre o Vietnã. Como turista apenas, não se nota essa falta de liberdade claramente. E eu soube por pessoas que moram lá que a maioria da população é alienada (no sentido mais clássico da palavra), e na sua ignorância são felizes e não reclamam da vida ou da política do país.

Outra coisa que me chamou a atenção nas minhas leituras foi o fato de que em 2009 o Vietnã negou 45 propostas da ONU no sentido de diminuir as restrições na internet, autorizar mídia independente ou reconhecer que os cidadãos têm o direito de expressar suas opiniões, por exemplo.

É... o Vietnã é este país contraditório, incrível, interessante, difícil de entender! Entre cavernas, formações rochosas belíssimas, praias, povos étnicos, costumes exóticos aos olhos ocidentais, muita história e mesmo uma “não simpatia” natural do povo das cidades, tem um sentimento que me foi despertado profundamente: a vontade de passar mais tempo lá, absorver mais as nuances do país, entender suas peculiaridades, conhecer melhor seus povos... Entrei no Vietnã com muitas curiosidades e saí com inúmeras perguntas; sigo lendo e pesquisando... Algumas consegui responder, outras ainda não. Em meio às minhas incertezas e dúvidas, uma coisa é certa: ao Vietnã voltarei!


segunda-feira, 7 de março de 2011

Voluntariando no Camboja

Apesar da chegada no Camboja ter tido os seus percalços, como eu contei no último post, o país é demais! O povo é absolutamente encantador, com um sorriso que contagia, e a impressão que eu tenho é que os cambojanos querem fazer tudo direitinho, tudo pra agradar o turista, que estão a fim mesmo de que o país cresça e se desenvolva.

Depois da queda do Império de Angkor, que foi glorioso nos séculos VIII a XII e sobreviveu aos trancos e barrancos até o século XV, o país não teve muita sorte, digamos. E no século XX, então, o Camboja passou por dominação japonesa na II Guerra Mundial, luta pela independência da França, golpe de Estado, envolvimento na famosa Guerra do Vietnã (na qual morreram 300.000 cambojanos), guerra civil, além do cruel regime comunista-agrário radical imposto pelo Khmer Vermelho de 1975-79 (Khmer Rouge, no original), quando milhares foram submetidos a trabalho forçado, torturados, assassinados, mortos por doença ou inanição, para dar um ideia do tamanho da tragédia. Me espanta que após tudo isso o povo do Camboja seja tão caloroso e sorridente. Até agora eles são os meus preferidos, ultrapassando os simpáticos balineses! :)

Antes mesmo de sairmos em viagem, eu e Decarlos já tínhamos conversado que queríamos visitar um orfanato em algum momento. Em Ko Tao, na Tailândia, um dos instrutores de mergulho nos falou que tinha ido várias vezes no New Futures, em Takeo, uma vilazinha ao sul da capital, Phnom Penh. Pesquisamos, gostamos bastante da ideia e fomos pra lá!

A estrutura do orfanato hoje, depois de quase ter fechado em 2008 por falta de recursos, é muito boa. Uma casa de tamanho médio com cinco quartos, nos quais dormem as 50 crianças, de 6 a 20 anos, divididas por sexo e idade. No pátio do orfanato foi construída uma biblioteca, uma sala de aula, um salão de beleza, uma sala de carpintaria/marcenaria, tem um campinho de futebol, um playground, enfim, tudo o que as crianças precisam para brincar e aprender.

New Futures Organization tem também uma casa grande onde ficam os voluntários, naturalmente pagando acomodação, com internet, café da manhã e janta. Tudo é feito para facilitar a vida de quem vem pra ajudar, e a casa pelo jeito está sempre cheia. Por lá já passou gente de 32 nacionalidades diferentes!

De manhã as crianças vão à escola, voltam pra almoçar e depois vão mais umas horinhas à tarde. Mas como as aulas nas escolas cambojanas são meio instáveis, acaba que grupos de crianças diferentes vão à escola em horários diferentes, então sempre tem gente no orfanato. Às 15 h todas já estão de volta.

A instituição abriga 6 crianças que sofreram abuso, 14 que são órfãs de pai e mãe, e o restante são os chamados órfãos econômicos – têm família, mas esta não possui condições de criá-los.

Não há a exigência de um tempo mínimo de estadia por parte dos voluntários; há quem fique apenas um dia (nós ficamos três), mas a maioria fica algumas semanas, ou até meses. Na real, nada é exigido dos voluntários. Tu podes fazer o que queiras pra ajudar, quando queiras, como queiras. Depende mesmo da iniciativa individual de cada um. Não há um horário de trabalho, nem ninguém vai te dizer o que fazer. It's totally up to you!

Se por um lado isso torna as coisas bem relax e sem pressão pra aquele que quer ajudar, por outro, às vezes eu acho que as coisas acabam ficando soltas demais. Me explico. É claro que, como os diretores mesmo atestam, só de passar um tempo com as crianças já se está contribuindo pro Inglês delas melhorar (todas aprendem Inglês na escola, além de aulas extras com os voluntários), pra autoconfiança delas, etc. Mas eu me senti superperdida no primeiro dia, e muitas vezes inútil e consequentemente frustada nos outros dois. E conversei com várias outras pessoas recém-chegadas que estavam bem sem saber o que fazer, disseram que ninguém tinha dito nada direito pra elas, que estavam perdidas enfim!

Como eu só tinha três dias, resolvi que no segundo queria chegar com algum plano, fazer alguma atividade, e não ficar apenas conversando. Dei uma dormidinha depois do almoço e pensei que gostaria de acordar sabendo o que fazer. Ainda bem que deu certo. Despertei com a ideia de fazer um pôster em que qualquer criança podia colaborar com algum desenho e a sua assinatura. Cheguei lá, peguei o material necessário, colei várias folhas A3 juntas, e fui chamando as crianças que iam passando pela sala de aula. O resultado ficou legal, embora tenham participado 10 ou 12 apenas. Isso é outra coisa que é difícil: reunir várias crianças ao mesmo tempo, pois tinha tanto voluntário lá (acho que uns 25) que as crianças se dividiam. E muitas vezes elas também gostam de brincar entre elas. Nem todas falam um bom inglês, por exemplo, pra ficar batendo papo.

No terceiro dia, resolvi que ia utilizar o salão de beleza. Ao chegar, limpei o salão, que estava uma bagunça, e aos poucos as meninas, e outras voluntárias, foram chegando. Fiz alguns cabelos, unhas e fui maquiada!

O De ajudou direto na construção da cerca do playground e também fez um carrinho de bambu.

A experiência foi marcante, sim. No entanto, tenho que dividir com vocês as minhas reflexões...

Mesmo eu fazendo o pôster e brincando no salão de beleza, teve vários momentos em que me vi caminhando pelo pátio, sem saber ou sem ter o que fazer, batendo fotos apenas, ou sentando e observando, porque nem sempre tu consegues encaixar alguma atividade em meio a tanta coisa que tem pra fazer e a tantos voluntários, todos querendo dar a sua contribuição, as crianças já todas ocupadas e tal... E o sentimento que me batia era de uma inutilidade sem fim...

Fiquei pensando se fiz alguma diferença pra elas... Será? Pensei que a diferença que fiz foi muito momentânea – quando a menininha queria pintar a unha de alguém, lá estava eu com as minhas unhas pra oferecer –, mas o que eu ensinei pra elas de verdade? Algo novo? Que diferença realmente fiz pra vida delas?

Conversei com voluntários que estão lá há mais tempo, gente que dá aula de Inglês todos os dias num horário determinado, gente que anda uma hora de bicicleta e vai nas escolas das vilas ensinar Inglês, o pessoal que está trabalhando mais na estrutura física do orfanato. E eu, que só brinquei umas poucas horas e troquei ideia com elas?? Fiquei com muita vontade de ficar lá mais tempo, pelo menos um mês. Eu daria aula de dança pra elas, não a dança do ventre, algo mais puxado pro jazz, ou até umas pinceladas de samba! Falei com o Neville, um dos diretores, ele disse que tem umas meninas que adoram dançar, que daria pra organizar uma aula mais séria só com estas e outra aberta a quem quisesse participar. Isso sim talvez fizesse uma diferença além da momentânea, pensei... Mesmo aula de Inglês eu adoraria dar! Já teria até um método, diferente do método sem graça (desculpem a honestidade) que eu vi uma das voluntárias utilizando numa aula. Mas com apenas três dias não dá pra colocar um projeto legal em prática.

Também pensei que com tantos voluntários indo e vindo, fica difícil formar vínculos, não? Claro que apesar disso, é melhor ter os voluntários do que não tê-los, óbvio. Pois a verdade é que o orfanato está sempre cheio de gente, busy, alegre, agitado. É fácil ver essas crianças sorrindo!

Pra terminar, o orfanato tem o objetivo de estabelecer ensino vocacional/técnico, pra que elas tenham uma profissão ao saírem do orfanato, ou então a organização paga universidade, acomodação, até elas ficarem mais independentes.

O sentimento de frustração que eu senti é coisa minha, pessoal. Apesar disso, eu tiro meu chapéu pro New Futures, um orfanato que superou os períodos de dificuldade financeira, se estabilizou, melhora a cada dia, e principalmente consegue fazer com que as crianças sejam felizes e vislumbrem um futuro pela frente.

Tem muitos orfanatos no Camboja. Se todos forem como o New Futures, a esperança de um futuro novo pra essas crianças com certeza se realizará. E pensando nisso, termino essa história feliz!


sábado, 26 de fevereiro de 2011

A máfia do turismo – caiu na rede é peixe!

Olha, é difícil não cair na “máfia do turismo”, como eu estou chamando, que há nos países em desenvolvimento da Ásia! Mesmo a gente sempre lendo sobre os lugares aos quais estamos indo, e sempre procurando nos manter informados sobre os “scams” - ou fraudes - que acontecem por aí! Se não cais por um lado, acabas caindo na rede por outro. É motorista de táxi, de tuk-tuk, de moto, é o cara da agência, do hotel ou o vendedor de rua, às vezes tem-se a impressão de que todos (ou quase) querem tirar vantagem de ti.

A gente já tinha lido que pra ir por terra de Bangkok, Tailândia, pra Siem Reap, Camboja, era melhor não comprar o ticket nas milhares de agências de viagens que há na cidade, mas ir com o ônibus do governo, mais barato, mais rápido, mais seguro. Também já sabíamos que, ao pegar um tuk-tuk na Tailândia (uma espécie de carrinho acoplado numa moto usado como táxi), não era pra cair no papo dos motoristas, que querem te levar pras lojas em que ganham comissão.

O nosso primeiro dia em Bangkok era um dos mais importantes feriados budistas, o Māgha Pūjā ou Makha Bucha, quando se celebra Buddha e seus ensinamentos. Os tuk-tuks naquele dia estavam cobrando só 10 bath (uns 30 centavos de US dólar) por pessoa pra te levar em quatro templos (dos famosos entre os turistas: standing Buddha, Lucky Buddha, Marble Temple, Golden Mount) porque tinham gasolina subsidiada pelo governo. Quando negociamos com um dos caras, falamos que não queríamos ser levados a loja nenhuma, mas quando já estávamos no tuk-tuk pelas ruas de Bangkok, o motorista, um carinha novo, pediu pra levar a gente numa só, que a gente não precisava comprar nada, só entrar, dar uma voltinha e sair; ele foi sincero ao ponto de dizer que era só pra ele ganhar o “fee” dele. Acabamos aceitando; já estávamos pagando tão pouco, não custava nada, a gente não tinha compromisso nenhum e tal! No fim até comprei uns óculos escuros, dos baratinhos, pois tinha perdido os meus e estava um sol de rachar.

Aí, antes de irmos no quarto e último templo ele perguntou pra onde a gente ia depois da Tailândia, e nós respondemos que era pro Camboja. Ele perguntou se tínhamos ticket, eu disse que não, ele ofereceu parar num lugar pra gente pegar informação sobre como ir pro Camboja e tal, primeiro eu disse que não precisava, daí ele mostrou no mapa dele, que era pertinho de onde estávamos indo e no mapa dele eu li “Tourism Authority of Thailand” e pensei: “Poxa, é um escritório da Autoridade de Turismo da Tailândia, oficial, está até no mapa, não custa passar lá!” E passamos.

De fato, chegamos lá e estava escrito em letras garrafais, repito, “Tourism Authority of Thailand”, tanto fora, na fachada, quanto dentro do escritório. Aí o cara que nos atendeu disse que a maneira mais fácil de ir pra lá era de ônibus, como tínhamos lido. Perguntei se era ônibus do governo, ele disse que sim. Nos disse o preço, eu achei meio cara, mas ele explicou que atravessaríamos todo o resto da Tailândia e que iríamos até Siem Reap, além da fronteira e tal. Ficamos meio na dúvida se deveríamos comprar naquele momento, mas acabamos comprando, afinal era o office do governo, que não era assim tão perto da nossa acomodação, e aí já teríamos essa parte resolvida, e seria tão prático! E compramos. Aí ele nos disse que nos pegariam às 7 h da manhã no nosso hotel. Por um segundo achei isso estranho, pois é coisa de quando tu compras em agência, mas não liguei muito pra esse meu pensamento. Ele logo pegou o ticket (na realidade um papel escrito que tínhamos comprado passagem pra dois, algo bem simples, mas é sempre assim na Tailândia) e colocou num envelope. Eu rapidamente conferi se a data estava certa e saímos contentes porque já não precisávamos mais fazer esta função. Quando estávamos saindo eu olhei a fachada de novo e vi que logo depois de “Tourism Authority of Thailand” tinha “n. 12345/67” pequeninho, no entanto naquele momento não me detive nisso. O importante é que estava tudo certo!

Umas horas depois, quando já estavamos de volta no nosso bairro (Khao San Road), me deu uma intuição do nada e eu comentei com o De que achava que tínhamos pagado mais do que deveríamos pela passagem. Na sequência, reparei que todas as agências tinham escrito em algum lugar (só que dum tamanho mais normal, sem destaque) “TAT license number 76543/21”. Aí comecei a me tocar do que tinha acontecido. Falei que estava desconfiada que aquela era uma agência como outra qualquer e que no fim das contas não iríamos pro Camboja com ônibus do governo. O De então logo entrou numa agência e perguntou o preço da mesma passagem: $350 baht (US$11), quando nós tínhamos pagado $950 baht (US$29)!!!!!! Caraca, me senti muito mal! Detestei ter sido enganada!! Fiquei com vontade de ligar pro cara na hora e perguntar o que que ele achava que tava fazendo? Que tipo de religião ele tinha? Que karma ele achava que estava criando pra ele? Pra que pegar dinheiro dos outros assim, mentindo descaradamente, iludindo, enganando! Fui ver o ticket com mais atenção e não tinha nem quanto a gente tinha pagado... Não ia adiantar nada ligar pra ele...Nós não fomos nem os primeiros nem os últimos a cair neste conto do vigário! Mas que me deu uma raiva, me deu!

Depois dessa a gente já nem sabia se iria vir alguém mesmo pegar a gente no hotel, mas esperamos pra ver. No dia marcado, pontualmente as 7 h da manhã, veio um minibus nos pegar. Aí, como já aconteceu em vários outros deslocamentos que fizemos dentro da Tailândia, estávamos certo que eles iriam pegar mais gente e depois nos levar até onde estava o ônibus propriamente dito, mais confortável, melhor pra viajar as quatro horas até a fronteira. Pegamos mais um casal e outro e outro, e quando demos por nós já estávamos em plena autoestrada, ainda e definitivamente no apertado minibus! Jesus-Maria-José! Por sorte (sorte?) fomos os primeiros e pegamos o banco da frente, com mais espaço pras pernas.

Bom, também já tínhamos lido de como na fronteira sempre tentam te cobrar o visto mais caro, isso podendo acontecer de diferentes formas: seja com os próprios oficiais do “visa on arrival”, ou quando se pega o bus do governo até o terminal da cidadezinha e então de lá um táxi ou tuk-tuk até a fronteira em si, acontece direto de eles quererem parar no Consulado do Camboja que tem antes e te cobrar mais caro pra pegarem a comissão deles. Também lemos (viva o Wikitravel!) de como acaba demorando mais se tu tentas falar, ainda que de um modo jeitoso, que tu sabes que o visto é mais barato, e quando pagas o que pedem tens o visto em uns poucos minutos.

O fato foi que o minibus parou num restaurantezinho antes da cidade da fronteira. Lá já tinha uns caras distribuindo o formulário de pedido de visto, o que se por um lado parecia prático e gentil (haha), por outro já nos mostrou onde isso ia parar! Preechemos e logo chegou um outro cara, sentou na mesa com a gente, pediu nossas duas fotos e nosso passaporte (ele já tinha vários outros na mão, cada um com o seu formulário) e disse bem educadamente que ia pegar o nosso visto e depois passar com a gente (e os outros do grupo) na fronteira. Bastava a gente pagar US$ 35 pra ele (quando deveria custar US$20 ou 25, dependendo de onde pegas o visto). Eu e De discutimos em Português se valia a pena dizer que não, depois ter que enfrentar os oficiais tentando arrancar dinheiro da gente de novo e, no fim, chutamos o pau da barraca e pagamos mesmo. Comparado ao que custou o visto da Índia (US$ 100) ou da Austrália (US$ 120), ainda estava em conta.

O nosso passaporte chegou logo bonitinho com o visto do Camboja, mas ainda tínhamos que passar pela saída da Tailândia, pela entrada no Camboja (pra pegar o carimbo) e depois pegar outro bus pra ir até Siem Reap. Turistada em peso, todo mundo no mesmo barco, fila pra uma coisa, fila pra outra, um calor dos infernos, e uma vida na fronteira que parecia cena de filme do Indiana Jones quando ele está a caminho dos lugares sagrados pra onde ele vai! Uma viagem! Os turistas nas filas, enquanto vááários locais, vestindo aqueles chapéus com um pano acoplado que tapa a boca pra proteger da poeira que subia das estradas de chão batido, empurravam tal qual animais carrinhos, carroças, carretas com pilhas enormes dos artigos mais variados, abertamente na divisa pra cá e pra lá! Surreal!

Passadas as fronteiras, ufa! Agora é só pegar o ônibus ou minibus que já deve estar ali esperando e mais três horas de viagem estamos em Siem Reap! Grande ilusão!

Passava das 2 h da tarde. O nosso guia da fronteira, que já era um terceiro cara, nos mostrou onde sentar pra esperar o bus. Eu e De já tínhamos conversado um pouquinho com ele antes, inclusive de primeira ele tinha memorizado que nós éramos os brazilians! Aí eu perguntei: “Chega que horas o bus?” “Às 3.30 h”, ele disse. “You kidding!” “No, no, I'm not kidding. Primeiro a gente organiza quem vai de táxi, depois é que chegam os ônibus.” “E daí são 3 h até Siem Reap, não?” “No, no, de táxi são 2 h, o ônibus leva umas 5 ou 6.” “You kidding?” “No, no, I'm not kidding. Quer que eu te conte por que os ônibus demoram tanto?” “Por quê?” “Porque eles param em um monte de lugar pra atrasar bastante a viagem pra vocês chegarem lá à noite, aí os motoristas de táxi e tuk-tuk levam vocês pras acomodações onde eles ganham comissão, e como vocês já estão cansados e é de noite, acabam aceitando!” … Foi com esse grau de sinceridade!!

hahaha Eu só não pensei que era mentira, porque na primeira parte da viagem, quando saímos de Bangkok, a gente leu que isso podia acontecer!

Perguntamos quanto era pra ir de táxi, ele nos explicou que quatro pessoas num táxi sairia US$ 12 cada uma! Eu já tava louca pra aceitar, sinceramente! A essas alturas eu já não estava nem me importando de pagar mais US$ 24 pra ter o conforto de chegar em Siem Reap durante o dia e ter um tuk-tuk que nos levaria gratuitamente, segundo ele, pra acomodação que a gente quisesse, pois o táxi não ficaria rondando na cidade prum lado e pro outro, considerando que seriam dois casais diferentes a viajarem juntos no táxi. Perguntei que garantia eu podia ter de que ia ter tuk-tuk de graça. Ele disse: “Eu tô te falando! Vai ter!”

Demoramos pra dar a resposta, enquanto o De pensava, e ele foi baixando o preço. No fim pagamos US$ 9 cada e pegamos um táxi junto com um casal de italianos. Foi a melhor coisa que fizemos! Chegamos em duas horas mesmo, realmente tinha um tuk-tuk nos esperando, o “chefe” dos tuk-tuks disse que o motorista podia parar em duas ou três acomodações se quiséssemos ver várias, que se a gente não soubesse de nenhuma eles indicariam, sem compromisso nosso de ficar em alguma, que eles não querem dar golpe em ninguém, que eles só iriam oferecer um tuk-tuk pra nos acompanhar no templo de Angkor (um complexo de templos enorme, precisaríamos mesmo de um transporte lá e acabaríamos pegando um tuk-tuk, que é o meio mais barato!). O nosso futuro motorista veio no tuk-tuk conversando com a gente, bem simpático, perguntou quanto que a gente queria pagar em acomodação, dissemos, e eles nos levou num hotel superbem localizado que abriu há um mês, tudo novinho e limpinho, dos melhores quartos que ficamos na viagem até agora, sem dúvida!

Mas sem fugir do ponto, a máfia do turismo me deixa perplexa. A maneira como eles te cercam por um lado ou por outro, te pegam pela ignorância ou por saberes demais, pelo cansaço ou comodismo. Não sei se tem como escapar. Acho que cedo ou tarde, o turista cai na rede. E uma vez na rede, fica ainda mais difícil se desvencilhar... O negócio é ter paciência, bom humor e um pouco de dinheiro extra pra não lamentar muito as perdas... Ainda bem que tem templo de sobra por aqui! Que Buddha nos conceda esses três pedidos!

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Muçulmana, Moderna, Malásia


Coloque as três palavras acima na ordem em que quiser! O post de hoje é sobre esse país que é muçulmano e moderno; é sobre as Mulheres Modernas da Malásia Muçulmana; ou as Mulheres Muçulmanas da Moderna Malásia; sobre as Mulheres Malasianas que são Muçulmanas e Modernas enfim!

Vale antes destacar que o Islamismo é a religião oficial do país - 60.4% da população se declara muçulmana. Inclusive há cortes judiciais especiais para os Muçulmanos, cujos julgamentos seguem a Sharia – não as leis civis - em casos envolvendo casamento, herança, divórcios, apostasia, conversão religiosa, entre outros. Interessante, não?

Logo que chegamos à Malásia, me chamou a atenção ver as mulheres de lenço na cabeça – o hijab – vestindo justas calças jeans. Comparando com Lombok, Indonésia, onde as mulheres muçulmanas só podem vestir roupas justas pro marido, logo vi que aqui as pessoas deviam ser mais “mente-aberta”.

Aí, no nosso primeiro dia resolvemos conhecer a Mesquita Nacional. Chegamos bem no horário em que visitas só eram permitidas aos de religião muçulmana. Aproveitamos o tempo de 1h e meia pra ir no Museu de Artes Islâmicas e voltamos no horário adequado. Tivemos que vestir um manto comprido e recebi intruções claras pra cobrir o meu cabelo com o capuz. Bonito o salão principal da mesquita e a própria construção em si, diferente do estilo mouro que encontramos nos países árabes. Mas o que fez a visita valer muito foram mesmo os folhetinhos sobre o Islam que estavam expostos na saída do salão de oração, vários deles, dos quais podíamos pegar os que quiséssemos. Escolhi três envolvendo a situação da mulher, um deles especificamente sobre o modo de vestir pregado e defendido pelo Islamismo.

Eis algumas das frases que me fizeram refletir (minha tradução livre do Inglês):

“A mídia e os políticos do Ocidente falam do Islam como sendo contra os direitos das mulheres; destacam práticas políticas e culturais que embora ocorram em terras muçulmanas não têm a ver com o Islamismo.”

“Eles sequer poupam o hijab, a vestimenta das mulheres muçulmanas, dizendo que é prova da submissão das mulheres no Islam.”

“O efeito tem sido contrário – Islam é a religião que mais cresce no mundo. Mais mulheres estão vestindo o hijab. Muitas o vêem como sinal da sua identidade muçulmana e da sua liberação do estilo de vida ocidental, que escraviza as mulheres à indústria de cosméticos e à moda.”

“O Islamismo não impõe regras sobre o estilo de se vestir, apenas ensina homens e mulheres a serem humildes nisso.”

“A roupa dos muçulmanos deve ser larga o suficiente para esconder as formas do corpo.”

“Os críticos ocidentais dos direitos das mulheres no Islam demonstram sua hipocrisia ao silenciarem sobre a indústria pornográfica de bilhões de dólares que trata a mulher como objeto, como algo sem valor.”

Concordo que nós, mulheres ocidentais, somos escravas da beleza, nos preocupamos excessivamente com isso. Mas e a mulher muçulmana também não tem vaidade e não se preocupa em estar bonita? Aqui na Malásia está claro que sim. Basta caminhar na rua ou nas estações de trem pra encontrar várias meninas com suas calças jeans (justas, como eu disse), sapatos bonitos e o lenço da cabeça cheio de detalhes, jogando com a roupa que vestem, fazendo o maior estilo. Isso não parece causar furor ou ofensa na sociedade malasiana, nem ser visto como afronta à religião muçulmana aqui. Parece que há um diálogo intercultural na Malásia que funciona, que leva a um caminho do meio entre o modo de vestir do Islamismo e a sociedade atual com seus padrões de beleza e moda.

Também fiquei pensando: não é a vaidade algo inerente ao ser humano? A gente não vê em museus peças magníficas de jóias superantigas, roupas bem trabalhadas? E em filmes e livros, não importa o contexto em que a história se passe, sempre a exaltação à beleza, a jóias preciosas, a roupas ou sapatos valiosos? Me lembrei até daquela cena do filme Sex and the City 2, mesmo não sabendo se é pura ficção ou se tem algo de real, em que mulheres com burka vestiam por baixo roupas de grandes estilistas como Dior ou Dolce&Gabbana. Não duvido nada que as esposas dos sheikes, que têm dinheiro, realmente vistam roupas caríssimas por debaixo da burka...

É uma pena que não seja fácil conversar com algumas dessas mulheres! Eu teria adorado! Mas aqui teria que se ter a sorte de encontrar alguém mais aberto, disposto a conversar com turista (o povo malasiano não é tão aberto quanto os balineses, por exemplo), e que fale inglês! Na primeira vez que passei por uma mulher vestindo uma burka preta, só os olhos dela sendo visíveis, nem foi na Malásia; foi no aeroporto de Jakarta, Indonésia. Quando estávamos passando uma pela outra, ela com o marido, disfarcei a curiosidade e não fiquei olhando pra ela. Depois, olhei pra trás, e ela também. Trocamos olhares curiosos, mas nenhuma palavra.

…

No fim das contas, me pergunto: qual é a diferença entre as mulheres do Ocidente e do Oriente, se todas querem estar bonitas, se ficam contentes quando adquirem uma roupa nova ou um acessório estiloso, se são vaidosas e prezam pela sua beleza?

Quanto mais eu me deparo com a diversidade do mundo, mais eu constato que no fundo – na essência – somos todos muito parecidos!

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Os templos de Cingapura

Cingapura é um país curioso! Pra começar é um país de uma cidade só (como Mônaco e Vaticano), e esta cidade-estado é uma ilha. Apesar de não ter nenhum recurso natural, faz parte do grupo dos países desenvolvidos e é um dos quatro Tigres Asiáticos (junto com Hong Kong, Coreia do Sul e Taiwan).

Embora seja uma das cidades mais caras do mundo, como dizem, não é isso o que chama mais a atenção no país, mas sim a sua multiculturalidade. Formada principalmente por chineses, malasianos e indianos, é fácil encontrar quase lado a lado mesquitas, templos hindus e budistas. No entanto, os templos mais comuns, em maior quantidade disparado, da Cingapura são os templos do consumo – os shopping centers!

É incrível! A impressão que dá é que não tem uma quadra na cidade sem um shopping ou ao menos sem um centro comercial ou um market desses de rua com váááááárias banquinhas vendendo de tudo!

No nosso primeiro dia na cidade estava chovendo sem parar (coisa rara em Cingapura, mas calhou bem quando estávamos lá), então quando estávamos cansados de andar na chuva, sempre tinha um shopping perto pra gente dar um tempo! E tem tantos, mas tantos, que em princípio eu me perguntei se haveria consumidor pra tanta loja... Minha pergunta foi logo respondida: tinha gente em tudo quanto era estabelecimento, do popular ao chique, do barato ao caro! Gente, gente, gente por tudo, comprando, comprando, comprando, sacolas, sacolas, sacolas! Ai, que agonia! Aí eu pensei que tinha tanta gente porque afinal era um domingo chuvoso. Mas na segunda-feira fim de tarde, quando a galera saiu do trabalho, as lojas ficaram cheias de novo, até altas horas da noite!

Cingapura é uma cidade tão legal, tem tanta coisa pra fazer: jardim botânico, zoológico, parque de aves, parques em geral, praia, caminhada na beira do rio, museus (aliás o Museu Nacional é ma-ra-vi-lho-so, o destaque do país na minha opinião), teatro, casino, campeonatos de diversos esportes... Será que comprar é o que os cingapurianos mais gostam de fazer???