terça-feira, 18 de janeiro de 2011

As crianças de Lombok


Saímos de Bali e viemos à ilha vizinha: Lombok. Diferente de Bali, Lombok é muçulmana. A lingua predominante aqui não é o Indonesiano (ou Bahasa Indonesia), mas o Lomboquês (ou Bahasa Sasak).

Lombok é incrível em vários aspectos: praias paradisíacas de areia branca fina, coqueiros, e bem rural (ao menos no Sul, onde estamos, Kuta Lombok). No caminho pras praias de surfe, agora de motinho pelas ruas esburacadas, a gente passa por casebres que não devem ter nem luz elétrica, com suas cabras, galinhas, vacas...

Eu pensei que não fosse ter nem internet aqui (pois, como já tinham nos informado, não tem caixa eletrônico, por exemplo), mas na vilinha onde ficam as acomodações já tem internet broadband! Ou seja, se tem algo que Lombok tem em comum com Bali é o contraste. De um dos lados do lixo acumulado em terrenos baldios, vê-se cabras e crianças brincando; do outro, placas de imobiliárias vendendo terras já loteadas ou propaganda de resorts.

Falando nas crianças, é nelas que eu quero me deter neste post. Passou da 1h da tarde, hora em que elas saem da escola, tu colocas o pé na rua e vêm várias tentar te vender pulseirinhas. Elas são fofas, de 4 ou 5 anos de idade a uns 12, e falam inglês! Normalmente elas estão em pequenos grupos, e tem uma que domina mais o idioma. Aí sempre rola um papo, é claro! Elas perguntam o teu nome, te dizem “nice to meet you”, te perguntam de onde és!

Hoje uma menina, de nome Fika, quando estávamos no restaurante, veio sozinha. Aproveitou uma brechinha do dono, que não deixa elas entrarem e “incomodarem” os clientes, e veio direto pra nossa mesa. Ela se apresentou, perguntou nosso nome, nos deu um aperto de mão. Gente, muito linda ela! Eu a elogiei, é claro, e ela disse que eu também era beautiful; depois elogiou meus brincos (em formato de flor, produzidos na fábrica do meu primo Alexandre), e eu já tinha me derretido por ela. Mas aí o dono chegou e pediu pra ela sair. Eu decidi que vou comprar uma pulseirinha dela na próxima vez que a encontrar!

Depois, estávamos passeando pelas lojinhas (pequenas casinhas feitas de bambu ao longo da praia onde vendem vestidos, shortinhos, etc.) e um menino de uns dois anos disse “hello, miss!” com um sorriso, enquanto o irmãozinho dele de meses, sentadinho no chão de concreto, abanava.

Num café, enquanto tomávamos uma Bintang, a cerveja daqui, na beira da praia, outras duas meninas se aproximaram, e desta vez era a pequeninha, de uns 4 ou 5 anos, que mandava no inglês. Que pronúncia, que olhar vivo, que fofa ela! Seu nome é Mary e o da irmã, Lisa. Chama a atenção como várias aqui têm nome americano... Já conheci Tina, Anne, Julianne...

E agora há pouco, para completar, estávamos sentados tomando um cafezinho na varanda da nossa acomodação – uma homestay, que é das acomodações mais baratas por aqui –, três meninos entraram e vieram ter com a gente. Umas figuras eles! Principalmente o dominante. Todo estiloso, cabelo arrepiado com gel (ou algo equivalente), um sorrisão! Nos ensinaram umas palavras de Lomboquês: como dizer “não, obrigada”, “amanhã”, “não tenho dinheiro”... E repetiam até que a gente falasse certinho! Na real, quando eles estavam entrando eu pensei: “até aqui?!! Bem na hora do cafezinho...!”. Mas no fim o papo foi ótimo! Eu sempre pergunto se eles vão à escola, e até hoje, que é sábado, eles foram; seis dias de escola na semana (amanhã é dia de feira, nos explicaram). Aliás, é na escola que eles aprendem inglês, além do Indonesiano e do Lomboquês, por certo. Nos disseram, bem orgulhosos, que falam três linguas!

Ele (esse acabei esquecendo de perguntar o nome; ele também o nosso) falou que gostou da nossa música (era o grupo espanhol Café Quijano), perguntou quanto eu paguei no Ipod (sem usar a palavra Ipod), eu respondi que foi presente da minha mãe, disse então que achou very nice e que adora cantar. Parei a música e pedimos: canta pra gente! Ele pensou um segundo, buscando a palavra, e disse apenas: shy!

Que encanto essas crianças! Sério, eu tenho vontade de comprar uma pulseirinha de cada uma delas! Me dá uma pena de elas estarem trabalhando... Aí o Decarlos diz que a situação das crianças pobres no Brasil é bem pior, que ao menos aqui elas não estão pedindo esmola no sinal ou tentando conseguir dinheiro pra manter o vício dos pais... que o dinheiro vai pra comprar livro pra escola, como elas dizem, ou pro sustento da família, e que elas não estão num trabalho pesado, numa fazenda ou quebrando pedra, como já saiu na tevê... Mas mesmo assim me dói. Elas tinham que estar brincando, curtindo a vida... mas a vida não permite...

Bom, esse foi só o nosso primeiro dia aqui. Se continuar assim, amigas, preparem-se: vai ser pulseirinha de Lombok de lembrança pra todo mundo!

P.S.: Hoje, domingo, o De foi pro surfe e eu fiquei pra ir na feira. Quando ele tinha acabado de sair, eu esperando o café, adivinhem quem entra e vem falar comigo? Fika! Aí fiquei um tempão conversando com ela, batemos fotos, e comprei duas pulseirinhas de conchinhas. Quando eu ia bater a foto, perguntei se tinha problema; ela disse que não, que estava happy, que eu era very friendly! Depois de ir no market, que foi uma experiência e tanto, decidi ir ler na praia. Mal me sento e quando me dou conta, tem sete meninas na minha volta, entre elas a Fika. Ficamos mais de uma hora ali conversando! Claro que elas queriam mesmo era vender pulseirinha, mas eu vou mudando de assunto! A Fika é uma fofinha, com certeza a minha preferida! Sem ilusões, tenho que dizer que às vezes a insistência de algumas cansa um pouco... Ainda assim, eu gosto delas!

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Bali dos contrastes

Depois de passar por Sydney, chegamos na Indonésia. Que loucura estar na Ásia! Já no aeroporto se sente o choque Ocidente-Oriente e a diferença país desenvolvido-país em desenvolvimento.

Mas eu quero falar mesmo é dos papos que batemos com os motoristas de táxi. Pra começar, os indonesianos em geral falam pouco ou nada de inglês! Mesmo aqui em Bali, lugar tão turístico, às vezes é difícil se fazer entender. Ou seja, os motoristas de táxi, apesar de falarem pouco inglês, são os que melhor falam!


O trânsito aqui é muito louco: motocicletas, carros, pedestres, bikes, todos se misturam, passam fino um do outro, e pros locais tudo parece absolutamente normal, enquanto a gente, dentro dos táxis, no começo em alguns momentos perde a respiração! Agora, entre Natal e Ano Novo, tem muuuita gente e muito veículo na rua, então alugar carro ou motinho por enquanto nem pensar! Eu não me arrisco! Por isso táxi é a melhor opção. Pegamos tanto na nossa chegada, em Jakarta, quanto aqui em Bali pra ir de um lugar a outro. E no fim é uma ótima oportunidade pra conversar com gente daqui!


Hoje de manhã pegamos (eu, Decarlos, Ângela e Camilo, nossos amigos de Wellington que estão por aqui!) um pra ir de Nusa Dua a Sanur, onde passaremos a virada. De cara, o motorista, o Dira, nos chamou a atenção: não era um balinês tão calmo quanto os que vimos por aí. Mas como todo balinês, gosta de conversar e é simpático e risonho! Aproveitamos e enchemos o cara de pergunta!


Do nosso papo duas coisas me chamaram mais atenção. Uma é a dureza em que ele vive. Negociamos o preço da viagem e ele apareceu com um carrão. Claro que não era dele, mas do “boss”, um chinês. E ele estava nos falando que só 20% do que pagamos fica com ele. Ele mora numa casa de um quarto (se é que a casa em si não é uma peça apenas), e ele dorme na mesma cama com a esposa, o filho de 9 anos e a filha de 5. Paga 300.000 rúpias por mês (mais ou menos US$33,00). Na negociação, ele começou dizendo que normalmente esta viagem de Nusa Dua a Sanur custa $150.000 rúpias, mas como tinha trânsito ele teria que cobrar 200.000 da gente. Nem tentamos negociar. A pobreza contrasta tanto com a riqueza dos resorts na beira da praia aqui que eu nem tenho mais vontade de barganhar quando estou lidando com locais; quero mais é pagar o que eles pedem. Digo isso porque há um quase “desespero” por parte dos locais de conseguir gente pra sua lojinha, pro seu transporte, pro seu restaurante, que me dói. Enfim, o que eu ia dizer é que eu espero que ele repasse apenas 150.000 pro “boss” dele, e que fique com os 60.000 extras (demos mais 10.000 de gorjeta) pra ele e pra família. Mas como eles parecem ser honestos, fico até na dúvida!


Outra coisa que me chamou a atenção é a raiva que ele tem de muçulmanos, ele que vive no país muçulmano mais populoso do mundo (embora todo país árabe seja muçulmano, nem todo país muçulmano é árabe)! Sim, a ilha de Bali é de maioria hindu e agora nas férias vem muita gente da ilha de Java pra cá, todos muçulmanos, e o Dira deixou bem claro, mesmo no seu parco inglês, que não gosta nem um pouco deles, que eles brigam muito, que colocaram as bombas em Bali nos anos de 2002 e 2005, que não tem nada contra os chineses e os cristãos, mas que preferia que os muçulmanos não viessem pra cá.


Aí que esse papo todo me fez pensar várias coisas. Primeiro, referente à minha primeira observação – o contraste entre pobres e ricos, a exploração dos pobres – pensei que talvez nisso Indonésia e Brasil não difiram muito. Mas apesar desta minha constatação, hoje, meu segundo dia aqui, me senti triste com a pobreza, com o lixo na rua, com a injustiça do mundo... eu que sou do Brasil, outro país de contrastes...


Já no quesito religião, pensei que o Brasil tem isso de bom: tolerância religiosa! Com toda a variedade de religiões que temos no nosso país, conflitos ou desacordos violentos entre diferentes na crença não é um dos nossos problemas. Aqui na Indonésia e em outros países do Sudeste Asiático, é um item constante nos relatórios de direitos humanos de ONGs como a Human Rights Watch ou Anistia Internacional. No caso específico da Indonésia, a questão envolve restrições que o governo impõe a atividades religiosas que não condizem com os mandatos das seis religiões oficiais do país (Islamismo, Protestantismo, Catolicismo, Hinduísmo, Budismo e Confucionismo).


Aí depois eu fiquei pensando na questão dos muçulmanos. O “mundo muçulmano” é enorme e variado! Então tem-se que tomar muito cuidado com as generalizações. Mas quando muçulmanos radicais e intolerantes têm atitudes radicais e intolerantes, é muito fácil cair na generalização e falar que “os muçulmanos são isso ou aquilo”, “são violentos e terroristas”, etc. E eu acho que ao fazer este tipo de afirmação comete-se uma injustiça com a maioria dos muçulmanos... Eu atribuo parte disso à mídia, às notícias que nos chegam, mas no caso do Dira, o motorista do táxi, não sei se a mídia está envolvida... Tenho a impressão que é mais questão de experiência pessoal... E então lamento essa rixa, pra falar de forma leve, entre hindus e muçulmanos que há em alguns países do Sudeste Asiático...


De fato, Indonésia é um país bastante religioso e Bali mostra bem isso. Todos os dias os balineses colocam uma oferenda para os deuses na frente das suas casas ou lojas; to-dos-os-di-as! São florzinhas, algum pedaço de comida (já vi bolachinha, fruta, arroz) e até cigarro! Nos explicaram que é pra trazer boa sorte! E boa sorte é o que eu desejo a este país dos contrastes na resolução de seus conflitos! Selamat Tahun Baru (Feliz Ano Novo) pra Indonésia e pra todos nós!

P.S. Só pra esclarecer, depois do Dira pegamos vários outros táxis e nenhum dos motoristas tinha raiva de muçulmano! Bem que a gente logo notou que o Dira era um balinês mais nervoso, como eu disse antes. E mesmo os conflitos ligados a intolerância religiosa aqui ocorrem em partes específicas da Indonésia. Bali é uma ilha pacífica, linda, interessante e, sim, de contrastes! (em 7/1/2011)

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Time to go!

Esses últimos dias – os pré-viagem – têm sido muito bons! Todos os dias tem algo referente à viagem pra fazer, claro! Mas foi pra esses arranjos finais que deixei esta última semana mesmo! Então tá sem stress, fazendo um pouquinho de cada vez. Também tá muito bom estar na casa de amigos nesta semana. O Camilo e a Ângela são ótimos e todas as noites, quando estamos os quatro em casa, têm sido muito legais!


No mais, tá tudo certo! Pegamos dicas preciosas de amigos que fizeram uma viagem parecida – Cris e Felipe, Juliano e Rose, obrigada!!

Em dois dias embarcamos!!! Muito bom! Já estou com frio na barriga! Embora o último post tenha sido, digamos, mais acadêmico, agora o blog vai virar mais “personal experience”, sempre com os assuntos direitos humanos e diversidade em mente, claro! Deixo aqui nosso itinerário – passível de alterações – pra quem quiser nos acompanhar!

25/12 - Wellington (NZ) - Sydney (Aus)
29/12 - Sydney (Aus) - Jakarta (Indonésia)
30/12 - Jakarta (Indo) - Bali (Indo)
30/1 - Cingapura
3/2 - Kuala Lumpur (Malásia)
7/2 - Tailândia
21/2 - Camboja
4/3 - Vietnã
16/3 - Bangkok - Hong Kong
22/3 - Índia
2/5 - Londres/Cambridge
6/5 - Istambul
12/5 - Londres
16/5 - Praga
20/5 - Paris
24/5 - Madri
29/5 - Lisboa/Porto
4/6 - Brasil
4/7 - Santiago (Chile)
9/7 - Wellington (NZ)

Fui! :)



Foto: LP Queiroz

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

O diálogo intercultural e as comunidades que praticam a Circuncisão Genital Feminina

Como eu já escrevi em algum lugar, desde a primeira vez que ouvi sobre o diálogo intercultural eu me apaixonei pelo tema! Tenho vontade de saber mais e mais do assunto e de trazer a teoria do interculturalismo, abordada no meu livro, pra nossa vida prática.

Eu já li bastante sobre isso, claro, mas queria mesmo era ler TUDO. Talvez por não estar trabalhando diretamente com direitos humanos ou interculturalismo na Nova Zelândia, andei ultimamente menos próxima do tema do que gostaria. De fato, eu vejo que diálogo intercultural ainda é uma teoria nova – aqui na NZ pouco se fala disso na academia, por exemplo. Logo neste país tão multicultural! Parece-se focar mais no que eles chamam de biculturalismo (os Maori e Pacific Islanders, por um lado, e os europeus, por outro) e no multiculturalismo. Quando há um ano e meio atrás apresentei uma palestra na universidade, que contou com a presença de professores e de membros da Human Rights Commission, ninguém tinha ouvido falar de interculturalismo ou diálogo intercultural!

Eu gosto mais de interculturalismo do que de multiculturalismo (embora este também seja fascinante!), pois o primeiro denota não apenas culturas diferentes que existem num mesmo Estado, como faz a segunda doutrina; o interculturalismo vai além: procura entender e trabalhar com as relações que se estabelecem entre diferentes culturas, dentro ou fora do limite estatal. E isso não só é fascinante como desafiador!

Pra resumir numa frase, eu acredito que práticas culturais que prejudiquem ou coíbam o desenvolvimento integral do ser humano, e portanto que ofendem o conceito bastante filosófico - mas que todo mundo entende - da dignidade humana, merecem ser questionadas, adaptadas ou mesmo abandonadas. E tendo em conta que “cultura” é uma categoria dinâmica, em constante transformação, isso é não só possível como totalmente aceitável. Notem que eu falo em práticas culturais, não em culturas no geral, pois a verdade é que toda comunidade cultural contém práticas que promovem o desenvolvimento humano bem como práticas que o coíbem.

É complicado falar de um tema tão complexo e que pode gerar tanta discussão nos limites de um post do blog, não há dúvida! E até agora, pode parecer pra quem nunca leu sobre o tema que eu estou falando de conceitos abstratos... que fica até difícil acompanhar. Por isso, com a teoria eu paro por aqui, neste post, e vou direto aos fatos.

Uma prática cultural que sempre me intrigou é a da Mutilação Genital Feminina, justamente por envolver a situação de mulheres e crianças. Aliás eu – por respeito às comunidades praticantes, que o fazem com as melhores intenções (para proteger a mulher, para purificá-la, para torná-la “casável”) – nem gosto mais de usar este termo, mutilação, que hoje me parece carregado do ponto de vista ocidental. Prefiro Circuncisão Genital Feminina (CGF) ou, como tem se usado em inglês, Corte Genital Feminino (pois há comunidades que procedem a apenas um corte, sem de fato remover partes do corpo). Pena que eu só tenha chegado a esta conclusão depois de publicar o livro, mas isso passa a mudar pra mim a partir de agora.

Há poucos dias me deparei com um relatório recém-lançado pela UNICEF, em parceria com a Innocenti Research Centre, sobre a CGF em que eles relatam experiências recentes em prol do abandono desta prática que têm sido exitosas em cinco países da África – Senegal, Egito, Etiópia, Quênia e Sudão! E à medida que eu ia lendo o relatório minha alma regozijava – é puro interculturalismo posto em prática!

Com certeza a vontade de mudar determinada prática cultural tem que vir de dentro da comunidade, da base. Diferentemente do “approach” dado ao assunto na década de 90, hoje em dia se procura gerar mudança na comunidade como um todo, e não em uns indivíduos, e a questão da CGF é abordada em conjunto com outras, considerando-se a dinâmica social que envolve esta prática e as normas e valores que estão por trás dela. Normalmente o abandono da CGF está inserido em projetos de emancipação da comunidade (de novo este termo: community empowerment) que duram meses ou mesmo alguns anos. Há o apoio do governo do país, muitas vezes dos canais de mídia, e sempre tem uma ONG liderando. São os locais, gente de autoridade – líderes tradicionais e religiosos, médicos, jovens ativistas –, que trabalham diretamente com as comunidades, e portanto eles são ouvidos. Em vez de o foco estar na “erradicação de uma prática má”, o diálogo hoje se centra na construção de uma visão positiva do futuro, a partir da moldura dos direitos humanos. Toda a conversa sempre lida com a linguagem e os valores locais. A partir daí, as próprias comunidades conectam os ideais e os princípios de direitos humanos com as suas necessidades práticas e aspirações comuns.

E isso é outra coisa que defendo: a teoria acadêmica do ocidente por tradição coloca os direitos humanos tal como conhecemos hoje como uma criação ocidental, de uma determinada época (segunda metade do século XVIII) , em um determinado lugar (a Europa). Está na hora de irmos além dessa visão e entendermos que os valores que estão na base dos direitos humanos são encontrados em todas as sociedades! Os direitos humanos são fruto de uma luta liberalizadora que pode acontecer em qualquer parte do planeta!

Vejo que o interculturalismo vem a motivar e alimentar a possibilidade de vivermos num mundo plural mas com o igual respeito aos direitos humanos; é o caminho que temos para administrar alguns dos conflitos que a humanidade hoje enfrenta. Me pergunto se chegará o dia em que as distintas culturas dialogarão efetivamente e em que não haverá opressão sobre aquilo que todos trazemos dentro de nós: nossa própria humanidade.

Relatório “The dynamics of social change – Towards the abandonment of female genital mutilation/cutting in five African countries”:
http://www.unicef-irc.org/publications/pdf/fgm_insight_eng.pdf

Quer saber mais?
Direitos Humanos e Interculturalismo: Análise da prática cultural da mutilação genital feminina
Foto: UNICEF

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

1 bilhão e 400 milhões de razões

Semana passada fui no evento de lançamento do DVD “1.4 billion reasons”, de uma organização chamada “The Global Poverty Project”. Este projeto foi fundado pelos australianos Hugh Evans e Simon Moss com a ideia de educar para acabar com a extrema pobreza no mundo. “1.4 billion reasons” é uma apresentação de 90 minutos que quer comunicar as realidades da extrema pobreza e o que pode ser feito por pessoas comuns, por gente como a gente, pra alcançar esse objetivo.
Semana passada fui no evento de lançamento do DVD “1.4 billion reasons”, de uma organização chamada “

A apresentação trabalha em torno de 5 perguntas:

1 – O que é a extrema pobreza?
2 – Há algo que pode ser feito a esse respeito?
3 – Quais são as barreiras pra acabar com a extrema pobreza?
4 – Por que devemos nos importar com isso?
5 – O que podemos fazer?

Há no mundo 1 bilhão e 400 milhões de pessoas que vivem com menos de US$ 1.25 por dia, que é o que demarca a linha da pobreza extrema.

Proporcionalmente à população mundial, a extrema pobreza nas últimas décadas já caiu de 50% pra 25%. Não é este um dado que chama a atenção? E o Global Poverty Project acredita que em uma geração esse índice pode chegar a zero, se trabalharmos juntos. Com pequenas atitudes no nosso dia a dia podemos atingir uma grande meta.

A apresentação em si é muito bem feita. Slideshows, vídeos, dados científicos e exemplos reais e práticos de fato fazem ver que, com simples mudanças, todos podem ser parte do movimento. Fica claro que aquilo que a gente aprende, diz, faz, doa e compra tem tudo a ver com o fim da pobreza extrema.

Tudo começa com a consciência do que acontece no mundo – o poder do conhecimento – e com a partipação – o poder da voz. Estando bem informados, podemos cobrar dos políticos eleitos as promessas que foram feitas, além de exigir que tenham o fim da pobreza nos objetivos do seu mandato. Aí no Brasil eu não vejo muito isso, mas aqui na NZ é bem comum – e efetivo – escrever cartas pros membros do Parlamento (equivalentes aos nossos senadores e deputados federais), por exemplo. Ou mandar emails pra eles. Muitas vezes as ONGs já têm o conteúdo da carta/email pronto, é só assinar ou clicar no “enviar”. O cara recebe centenas ou milhares de correspondências falando do mesmo assunto. Pressão que pode funcionar. Por que não usamos mais essa ferramenta no Brasil?

Outra sugestão é “voluntarie-se”. Envolva-se em algum projeto, ajude a quem precisa. Faz a diferença e é gratificante.

Indo adiante, faça a sua doação valer. Quando for doar dinheiro a algum projeto ou instituição, pesquise, veja que trabalhos foram feitos previamente, os resultados práticos, pergunte-se: esta organização está realmente provocando mudanças? Neste caso, chama a atenção a diferença que faz estar num país desenvolvido, onde todos – ou quase todos – têm dinheiro pra si e também pra doar. Ano passado eu era voluntária da Anistia Internacional (AI) aqui em Wellington. Como outras organizações, a AI tem um dia no ano em que vários voluntários vão às ruas com um baldinho na mão recolhendo doações de quem passa. Claro que o evento é superbem organizado – cuida-se pra que das 9h às 17h tenha gente nas ruas, em determinados pontos estratégicos do centro da cidade e de bairros. É um verdadeiro rodízio. Obviamente que há a precaução de não haver duas organizações fazendo isso no mesmo dia. O resultado? Só aqui em Wellington a gente conseguiu NZ$ 12.000,00!!

E, pra mim, a ideia que mais pode gerar mudança se a gente conseguir colocá-la em prática no dia a dia: cuide do seu poder de compra! Procure comprar produtos que tenham o selinho “FairTrade” ou “Comércio Justo”. Ainda pouco divulgado no Brasil, este selo foi criado pela organização Fairtrade Labelling Organisations International (FLO), fundada na Europa em 1997 (embora o movimento pelo comércio justo exista desde os anos 1960), para produtos que respeitam certos padrões: que os produtores recebam um preço mínimo justo e que haja um equilíbrio social e ambiental na cadeia produtiva. Infelizmente, não é assim tão fácil encontrar nas prateleiras dos supermercados brasileiros produtos com o selinho (ou é? faz mais de dois anos que não vou ao supermercado no Brasil. Se alguém tiver informação diferente da minha, me avisa). No entanto, o que podemos fazer é buscar saber de onde vem o que compramos, se aqueles que produziram estão recebendo justamente, se estão trabalhando horas decentes, se o produto ajuda a comunidade (cidade, Estado ou país). Já pensou se várias pessoas começassem a chamar o gerente e a fazer este tipo de pergunta? Com certeza, o interesse do público geraria o interesse do negócio em vender produtos cujas respostas às perguntas acima deixassem os clientes satisfeitos.

Enfim, há várias opções do que pode ser feito.

No ano passado, o próprio Hugh Evans fez a apresentação “1.4 billion reasons” aqui no Parlamento, em Wellington, e eu fui! Tanto na última semana quanto neste primeiro evento, saí de lá cheia de esperança! É verdadeiramente inspiradora a apresentação! Além disso, toma-se consciência do quanto cada um de nós é importante, da nossa cota individual de responsabilidade pelo mundo em que vivemos.

Eu acredito no Projeto. Os números, os estudos, os fatos mostrados na apresentação embasam meu otimismo e minha fé. Tem 1 bilhão e 400 milhões de pessoas, no mínimo, que podem se beneficiar de nossas atitudes. E você? Acredita que pode ajudar a acabar com a extrema pobreza em algumas poucas décadas?